Ego
- O Falso Centro O
primeiro ponto a ser compreendido

Uma
criança nasce.
Uma
criança nasce sem qualquer
conhecimento, sem qualquer consciência
de seu próprio eu. E quando uma criança
nasce, a primeira coisa da qual ela se
torna consciente não é ela mesma; a
primeira coisa da qual ela se torna
consciente é o outro. Isso é
natural, porque os olhos se abrem para
fora, as mãos tocam os outros, os
ouvidos escutam os outros, a língua
saboreia a comida e o nariz cheira o
exterior. Todos esses sentidos
abrem-se para fora.
O
nascimento é isso.
Nascimento
significa vir a este mundo, o mundo
exterior. Assim, quando uma criança
nasce, ela nasce neste mundo. Ela abre
seus olhos, vê os outros.
O
"outro" significa o tu.
Ela
primeiro se torna consciente da mãe.
Então, pouco a pouco, ela se torna
consciente de seu próprio corpo. Este
também é o outro, também pertence
ao mundo. Ela está com fome e passa a
sentir o corpo; quando sua necessidade
é satisfeita, ela esquece o corpo.
É
desta maneira que a criança cresce.
Primeiro
ela se torna consciente do você, do
tu, do outro, e então, pouco a pouco,
contrastando com você, tu, ela se
torna consciente de si mesma.
Essa
consciência é uma consciência
refletida. Ela não está consciente
de quem ela é. Ela está simplesmente
consciente da mãe e do que esta pensa
a seu respeito. Se a mãe sorri, se
ela aprecia a criança, se diz:
"Você é bonita", se ela a
abraça e a beija, a criança sente-se
bem a respeito de si mesma.
Agora
um ego está nascendo.
Através
da apreciação, do amor, do cuidado,
ela sente que é boa, ela sente que
tem valor, ela sente que tem importância.
Um centro está nascendo.
Mas
esse centro é um centro refletido.
Ela não é o ser verdadeiro. A criança
não sabe quem ela é; ela
simplesmente sabe o que os outros
pensam a seu respeito.
E
esse é o ego: o reflexo, aquilo que
os outros pensam. Se ninguém pensa
que ela tem alguma utilidade, se ninguém
a aprecia, se ninguém lhe sorri, então,
também, um ego nasce - um ego doente,
triste, rejeitado, como uma ferida;
sentindo-se inferior, sem valor. Isso
também é o ego. Isso também é um
reflexo.
Primeiro
a mãe - e mãe, no início, significa
o mundo. Depois os outros se juntarão
à mãe, e o mundo irá crescendo. E
quanto mais o mundo cresce, mais
complexo o ego se torna, porque muitas
opiniões dos outros são refletidas.
O
ego é um fenômeno acumulativo, um
subproduto do viver com os outros. Se
uma criança vive totalmente sozinha,
ela nunca chegará a desenvolver um
ego. Mas isso não vai ajudar. Ela
permanecerá como um animal. Isso não
significa que ela virá a conhecer o
seu verdadeiro eu, não.
O
verdadeiro pode ser conhecido somente
através do falso, portanto, o ego é
uma necessidade. Temos que passar por
ele. Ela é uma disciplina. O
verdadeiro pode ser conhecido somente
através da ilusão. Você não pode
conhecer a verdade diretamente.
Primeiro você tem que conhecer aquilo
que não é verdadeiro. Primeiro você
tem que encontrar o falso. Através
desse encontro, você se torna capaz
de conhecer a verdade. Se você
conhece o falso como falso, a verdade
nascerá em você.
O
ego é uma necessidade; é uma
necessidade social, é um subproduto
social. A sociedade significa tudo o
que está ao seu redor, não você,
mas tudo aquilo que o rodeia.
Tudo,
menos você, é a sociedade. E todos
refletem. Você irá para a escola e o
professor refletirá quem você é.
Você fará amizade com outras crianças
e elas refletirão quem você é.
Pouco a pouco, todos estão
adicionando algo ao seu ego, e todos
estão tentando modificá-lo, de tal
forma que você não se torne um
problema para a sociedade.
Elas
não estão interessados em você.
Eles
estão interessados na sociedade.
A
sociedade está interessada nela
mesma, e é assim que deveria ser.
Elas não estão interessados no fato
de que você deveria se tornar um
conhecedor de si mesmo. Interessa-lhes
que você se torne uma peça eficiente
no mecanismo da sociedade. Você
deveria ajustar-se ao padrão.
Assim,
estão tentando dar-lhe um ego que se
ajuste à sociedade.
Ensinam-lhe
a moralidade. Moralidade significa
dar-lhe um ego que se ajustará à
sociedade. Se você for imoral, você
será sempre um desajustado em um
lugar ou outro.
É
por isso que colocamos os criminosos
nas prisões - não que eles tenham
feito alguma coisa errada, não que ao
colocá-los nas prisões iremos melhorá-los,
não. Eles simplesmente não se
ajustam. Eles criam problemas. Eles têm
certos tipos de egos que a sociedade não
aprova. Se a sociedade aprova, tudo
está bem.
Um
homem mata alguém - ele é um
assassino.
E
o mesmo homem , durante a guerra, mata
milhares - e torna-se um grande herói.
A sociedade não está preocupada com
o homicídio, mas o homicídio deveria
ser praticado para a sociedade - então
tudo está bem. A sociedade não se
preocupa com moralidade.
Moralidade
significa simplesmente que você deve
se ajustar à sociedade.
Se
a sociedade estiver em guerra, a
moralidade muda.
Se
a sociedade estiver em paz, existe uma
moralidade diferente.
A
moralidade é uma política social. É
diplomacia. E toda criança deve ser
educada de tal forma que ela se ajuste
à sociedade; e isso é tudo, porque a
sociedade está interessada em membros
eficientes .
A
sociedade não está interessada no
fato de que você deveria chegar ao
auto-conhecimento.
A
sociedade cria um ego porque o ego
pode ser controlado e manipulado. O eu
nunca pode ser controlado e
manipulado. Nunca se ouviu dizer que a
sociedade estivesse controlando o eu -
não é possível.
E
a criança necessita de um centro; a
criança está absolutamente
inconsciente de seu próprio centro. A
sociedade lhe dá um centro e a criança
pouco a pouco fica convencida de que
este é o seu centro, o ego dado pela
sociedade.
Uma
criança volta para casa - se ela foi
o primeiro aluno de sua classe, a família
inteira fica feliz. Você a abraça e
a beija, e você coloca a criança no
colo e começa a dançar e diz:
"Que linda criança! Você é um
motivo de orgulho para nós." Você
está dando um ego a ela. Um ego
sutil. E se a criança chega em casa
abatida, fracassada, um fiasco - ela não
pode passar, ou ela tirou o último
lugar - então ninguém a aprecia e a
criança sente-se rejeitada. Ela
tentará com mais afinco na próxima
vez, porque o centro se sente abalado.
O
ego está sempre abalado, sempre à
procura de alimento, de alguém que o
aprecie. É por isso que você está
continuamente pedindo atenção.
Ouvi
contar:
Mulla
Nasrudin e sua esposa estavam saindo
de uma festa, e Mulla disse:
"Querida, alguma vez alguém já
lhe disse que você é fascinante,
linda, maravilhosa?"
Sua
esposa sentiu-se muito, muito bem,
ficou muito feliz. Ela disse: "Eu
me pergunto por que ninguém jamais me
disse isso."
Nasrudin
disse: "Mas então de onde você
tirou essa idéia?"
Você
obtém dos outros a idéia de quem você
é.
Não
é uma experiência direta.
É
dos outros que você obtém a idéia
de quem você é. Eles modelam o seu
centro. Esse centro é falso, porque
você contém o seu centro verdadeiro.
Este,
não é da conta de ninguém.
Ninguém
o modela, você vem com ele. Você
nasce com ele.
Assim,
você tem dois centros. Um centro com
o qual você vem, que lhe é dado pela
própria existência. Este é o eu. E
o outro centro, que lhe é dado pela
sociedade - o ego. Ele é algo falso -
e é um grande truque. Através do ego
a sociedade está controlando você.
Você tem que se comportar de uma
certa maneira, porque somente então a
sociedade o aprecia.
Você
tem que caminhar de uma certa maneira:
você tem que rir de uma certa
maneira; você tem que seguir
determinadas condutas, uma moralidade,
um código. Somente então a sociedade
o apreciará, e se ela não o fizer, o
seu ego ficará abalado. E quando o
ego fica abalado, você já não sabe
onde está, quem você é.
Os
outros deram-lhe a idéia.
Essa
idéia é o ego.
Tente
entendê-lo o mais profundamente possível,
porque ele tem que ser jogado fora. E
a menos que você o jogue fora, nunca
será capaz de alcançar o eu. Por
estar viciado no centro, você não
pode se mover, e você não pode olhar
para o eu.
E
lembre-se, vai haver um período
intermediário, um intervalo, quando o
ego estará despedaçado, quando você
não saberá quem você é, quando você
não saberá para onde está indo,
quando todos os limites se dissolverão.
Você
estará simplesmente confuso, um caos.
Devido
a esse caos, você tem medo de perder
o ego. Mas tem que ser assim. Temos
que passar através do caos antes de
atingir o centro verdadeiro.
E
se você for ousado, o período será
curto.
Se
você for medroso e novamente cair no
ego, e novamente começar a ajeitá-lo,
então, o período pode ser muito,
muito longo; muitas vidas podem ser
desperdiçadas.
Ouvi
dizer:
Uma
criancinha estava visitando seus avós.
Ela tinha apenas quatro anos de idade.
De noite, quando a avó a estava
fazendo dormir, ela de repente começou
a chorar e a gritar: "Eu quero ir
para casa. Estou com medo do
escuro."
Mas
a avó disse: "Eu sei muito bem
que em sua casa você também dorme no
escuro; eu nunca vi a luz acesa: Então
por que você está com medo
aqui?"
O
menino disse: "Sim, é verdade -
mas aquela é a minha escuridão. Esta
escuridão é completamente
desconhecida."
Até
mesmo com a escuridão você sente:
"Esta é minha."
Do
lado de fora - uma escuridão
desconhecida.
Com
o ego você sente: "Esta é a
minha escuridão."
Pode
ser problemática, pode criar muitos
tormentos, mas ainda assim, é minha.
Alguma coisa em que se segurar, alguma
coisa em que se agarrar, alguma coisa
sob os pés; você não está em um vácuo,
não está em um vazio. Você pode ser
infeliz, mas pelo menos você é.
Até
mesmo o ser infeliz lhe dá ma sensação
de "eu sou". Afastando-se
disso, o medo toma conta; você começa
a sentir medo da escuridão
desconhecida e do caos - porque a
sociedade conseguiu clarear uma
pequena parte do seu ser...
É
o mesmo que penetrar em uma floresta.
Você faz uma pequena clareira, você
limpa um pedaço de terra, você faz
um cercado, você faz uma pequena
cabana; você faz um pequeno jardim,
um gramado, e você sente-se bem. Além
de sua cerca - a floresta, a selva.
Aqui tudo está bem; você planejou
tudo. Foi assim que aconteceu.
A
sociedade abriu uma pequena clareira
em sua consciência. Ela limpou apenas
uma pequena parte completamente e
cercou-a. Tudo está bem ali.
Todas
as suas universidades estão fazendo
isso. Toda a cultura e todo o
condicionamento visam apenas limpar
uma parte, para que você possa se
sentir em casa ali.
E
então você passa a sentir medo.
Além
da cerca existe perigo.
Além
da cerca você é, tal como dentro da
cerca você é - e sua mente
consciente é apenas uma parte, um décimo
de todo o seu ser. Nove décimos estão
aguardando no escuro. E dentro desses
nove décimos, em algum lugar, o seu
centro verdadeiro está oculto .
Precisamos
ser ousados, corajosos.
Precisamos
dar um passo para o desconhecido.
Por
um certo tempo, todos os limites ficarão
perdidos.
Por
um certo tempo, você vai sentir-se
atordoado.
Por
um certo tempo, você vai sentir-se
muito amedrontado e abalado, como se
tivesse havido um terremoto.
Mas
se você for corajoso e não voltar
para trás, se você não voltar a
cair no ego, mas for sempre em frente,
existe um centro oculto dentro de você,
um centro que você tem carregado por
muitas vidas.
Esta
é a sua alma, o eu.
Uma
vez que você se aproxime dele, tudo
muda, tudo volta a se assentar
novamente. Mas agora esse assentamento
não é feito pela sociedade. Agora,
tudo se torna um cosmos e não um
caos; nasce uma nova ordem.
Mas
esta não é a ordem da sociedade - é
a própria ordem da existência.
É
o que Buda chama de Dhamma, Lao Tzu
chama de Tao, Heráclito chama de
Logos. Não é feita pelo homem. É a
própria ordem da existência. Então,
de repente tudo volta a ficar belo, e
pela primeira vez, realmente belo,
porque as coisas feitas pelo homem não
podem ser belas. No máximo você pode
esconder a feiúra delas, isso é
tudo. Você pode enfeitá-las, mas
elas nunca podem ser belas.
A
diferença é a mesma que existe entre
uma flor verdadeira e uma flor de plástico
ou de papel. O ego é uma flor de plástico,
morta. Não é uma flor, apenas parece
com uma flor. Até mesmo
linguisticamente, chamá-la de flor
está errado, porque uma flor é algo
que floresce. E essa coisa de plástico
é apenas uma coisa e não um
florescer. Ela está morta. Não há
vida nela.
Você
tem um centro que floresce dentro de
você. Por isso os hindus o chamam de
lótus - é um florescer. Chamam-no de
o lótus das mil pétalas. Mil
significa infinitas pétalas. O centro
floresce continuamente, nunca para,
nunca morre.
Mas
você está satisfeito com um ego de
plástico.
Existem
algumas razões para que você esteja
satisfeito. Com uma coisa morta,
existem muitas vantagens. Uma é que a
coisa morta nunca morre. Não pode -
nunca esteve viva. Assim você pode
ter flores de plástico, e de certa
forma elas são boas. Elas são
permanentes; não são eternas mas são
permanentes.
A
flor verdadeira, a flor que está lá
fora no jardim, é eterna, mas não é
permanente. E o eterno tem uma maneira
própria de ser eterno. A maneira do
eterno é nascer muitas e muitas
vezes... e morrer. Através da morte,
o eterno se renova, rejuvenesce.
Para
nós, parece que a flor morreu - ela
nunca morre.
Ela
simplesmente troca de corpo, assim está
sempre fresca.
Ela
deixa o velho corpo e entra em um novo
corpo. Ela floresce em algum outro
lugar, nunca deixa de estar
florescendo.
Mas
não podemos ver a continuidade porque
a continuidade é invisível. Vemos
somente uma flor, outra flor; nunca
vemos a continuidade.
Trata-se
da mesma flor que floresceu ontem.
Trata-se
do mesmo sol, mas em um traje
diferente.
O
ego tem uma certa qualidade - ele está
morto. É de plástico. E é muito fácil
obtê-lo, porque os outros o dão a
você. Você não o precisa procurar;
a busca não é necessária para ele.
Por isso, a menos que você se torne
um buscador à procura do
desconhecido, você ainda não terá
se tornado um indivíduo. Você é
simplesmente uma parte da multidão.
Você é apenas uma turba.
Quando
você não tem um centro autêntico,
como você pode ser um indivíduo?
O
ego não é individual. O ego é um
fenômeno social - ele é a sociedade,
não é você. Mas ele lhe dá um
papel na sociedade, uma posição na
sociedade. E se você ficar satisfeito
com ele, você perderá toda a
oportunidade de encontrar o eu.
E
por isso você é tão infeliz.
Com
uma vida de plástico, como você pode
ser feliz?
Com
uma vida falsa, como você pode ser
extático e bem-aventurado? E esse ego
cria muitos tormentos, milhões deles.
Você
não pode ver, porque se trata da sua
escuridão. Você está em harmonia
com ela.
Você
nunca reparou que todos os tipos de
tormentos acontecem através do ego?
Ele não o pode tornar abençoado; ele
pode somente torná-lo infeliz.
O
ego é o inferno.
Sempre
que você estiver sofrendo, tente
simplesmente observar e analisar, e
você descobrirá que, em algum lugar,
o ego é a causa do sofrimento. E o
ego continua encontrando motivos para
sofrer.
Uma
vez eu estava hospedado na casa de
Mulla Nasrudin. A esposa estava
dizendo coisas muito desagradáveis a
respeito de Mulla Nasrudin, com muita
raiva, aspereza, agressividade, muito
violenta, a ponto de explodir. E Mulla
Nasrudin estava apenas sentado em silêncio,
ouvindo. Então, de repente, ela se
voltou para ele e disse: "Então,
mais uma vez você está discutindo
comigo!"
Mulla
disse: "Mas eu não disse uma única
palavra!"
A
esposa replicou: "Sei disso - mas
você está ouvindo muito
agressivamente."
Você
é um egoísta, como todos são.
Alguns são muito grosseiros,
evidentes, e estes não são tão difíceis.
Outros são muito sutis, profundos, e
estes são os verdadeiros problemas.
O
ego entra em conflito com outros
continuamente porque cada ego está
extremamente inseguro de si mesmo. Tem
que estar - ele é uma coisa falsa.
Quando você nada tem nas mãos, mas
acredita ter algo, então haverá um
problema.
Se
alguém disser: "Não há
nada", imediatamente começa a
briga porque você também sente que não
há nada. O outro o torna consciente
desse fato.
O
ego é falso, ele não é nada.
E
você também sabe isso.
Como
você pode deixar de saber isso? É
impossível! Um ser consciente - como
pode ele deixar de saber que o ego é
simplesmente falso? E então os outros
dizem que não existe nada - e sempre
que os outros dizem que não existe
nada, eles batem numa ferida, eles
dizem uma verdade - e nada fere tanto
quanto a verdade.
Você
tem que se defender, porque se você não
se defende, se não se torna
defensivo, onde estará você?
Você
estará perdido.
A
identidade estará rompida.
Assim,
você tem que se defender e lutar -
este é o conflito. Um homem que alcança
o eu nunca se encontra em conflito
algum. Outros podem vir e entrar em
choque com ele, mas ele nunca está em
conflito com ninguém.
Aconteceu
de um mestre Zen estar passando por
uma rua. Um homem veio correndo e o
golpeou duramente.
O
mestre caiu. Logo se levantou e voltou
a caminhar na mesma direção na qual
estava indo antes, sem nem ao menos
olhar para trás.
Um
discípulo estava com o mestre. Ele
ficou simplesmente chocado. Ele disse:
"Quem é esse homem? O que
significa isso? Se a gente vive desta
maneira, qualquer um pode vir e nos
matar. E você nem ao menos olhou para
aquela pessoa, quem é ela, e por que
ela fez isso?"
O
mestre disse: "Isso é problema
dela, não meu."
Você
pode entrar em choque com um
iluminado, mas esse é seu problema, não
dele. E se você fica ferido nesse
choque, isso também é problema seu.
Ele não o pode ferir. É como bater
contra uma parede - você ficará
machucado, mas a parede não o
machucou.
O
ego sempre está procurando por algum
problema. Por quê? Porque se ninguém
lhe dá atenção o ego sente fome.
Ele
vive de atenção.
Assim,
mesmo se alguém estiver brigando e
com raiva de você, mesmo isso é bom
pois pelo menos você está recebendo
atenção. Se alguém o ama, isso está
bem. Se alguém não o está amando,
então até mesmo a raiva servirá.
Pelo menos a atenção chega até você.
Mas se ninguém estiver lhe dando
qualquer atenção, se ninguém pensa
que você é alguém importante, digno
de nota, então como você vai
alimentar o seu ego?
A
atenção dos outros é necessária.
Você
atrai a atenção dos outros de milhões
de maneiras; veste-se de um certo
jeito, tenta parecer bonito,
comporta-se bem, torna-se muito
educado, transforma-se. Quando você
sente o tipo de situação que está
ocorrendo, você imediatamente se
transforma para que as pessoa lhe dêem
atenção.
Esta
é uma forma profunda de mendicância.
Um
verdadeiro mendigo é aquele que pede
e exige atenção. Um verdadeiro
imperador é aquele que vive em sua
interioridade; ele tem um centro próprio,
não depende de mais ninguém.
Buda
sentado sob sua árvore Bodhi... se o
mundo inteiro de repente vier a
desaparecer, isso fará alguma diferença
para Buda? - nenhuma. Não fará
diferença alguma, absolutamente. Se o
mundo inteiro desaparecer, não fará
diferença alguma porque ele atingiu o
centro.
Mas
você, se sua esposa foge, se ela pede
divórcio, se ela o deixa por outro,
você fica totalmente em pedaços -
porque ela lhe dava atenção,
carinho, amor, estava sempre à sua
volta, ajudando-o a sentir-se alguém.
Todo o seu império está perdido, você
está simplesmente despedaçado. Você
começa a pensar em suicídio. Por quê?
Por que, se a esposa o deixa, você
deveria cometer suicídio? Por que, se
o marido a deixa, você deveria
cometer suicídio? Porque você não
tem um centro próprio. A esposa
estava lhe dando o centro; o marido
estava lhe dando o centro.
É
assim que as pessoas existem. É assim
que as pessoas se tornam dependentes
umas das outras. É uma profunda
escravidão. O ego tem que ser um
escravo. Ele depende dos outros. E
somente uma pessoa que não tenha ego
é, pela primeira vez, um mestre; ela
deixa de ser uma escrava. Tente
entender isso.
E
comece a procurar o ego - não nos
outros, isso não é da sua conta, mas
em você. Toda vez que se sentir
infeliz, imediatamente feche os olhos
e tente descobrir de onde a
infelicidade está vindo, e você
sempre descobrirá que é o falso
centro que entrou em choque com alguém.
Você
esperava algo e isso não aconteceu.
Você
esperava algo e justamente o contrário
aconteceu - seu ego fica estremecido,
você fica infeliz. Simplesmente olhe,
sempre que estiver infeliz, tente
descobrir a razão.
As
causas não estão fora de você.
A
causa básica está dentro de você -
mas você sempre olha para fora, você
sempre pergunta:
Quem
está me tornando infeliz?
Quem
está causando minha raiva?
Quem
está causando minha angústia?
E
se olhar para fora, você não
perceberá.
Simplesmente
feche os olhos e olhe para dentro.
A
origem de toda a infelicidade, a
raiva, a angústia, está oculta
dentro de você; é o seu ego.
E
se você encontrar a origem, será fácil
ir além dela. Se você puder ver que
é o seu próprio ego que lhe causa
problemas, você vai preferir abandoná-lo
- porque ninguém é capaz de carregar
a origem da infelicidade, uma vez que
a tenha entendido.
E
lembre-se, não há necessidade de
abandonar o ego.
Você
não o pode abandonar.
Se
você o tentar abandonar, estará
apenas conseguindo um outro ego mais
sutil, que diz: "Tornei-me
humilde".
Não
tente ser humilde. Isso é o ego
novamente; às escondidas, mas não
morto.
Não
tente ser humilde.
Ninguém
pode tentar ser humilde e ninguém
pode criar a humildade através do próprio
esforço - não. Quando o ego já não
existe, uma humildade vem até você.
Ela não é uma criação. É uma
sombra do seu verdadeiro centro.
E
um homem realmente humilde não é nem
humilde nem egoísta.
Ele
é simplesmente simples.
Ele
nem ao menos se dá conta de que é
humilde.
Se
você se dá conta de que é humilde,
o ego continua existindo.
Olhe
para as pessoas humildes... Existem
milhões que acreditam ser muito
humildes. Eles se curvam com
facilidade, mas observe-as - elas são
os egoístas mais sutis. Agora a
humildade é a sua fonte de alimento.
Elas dizem: "Eu sou
humilde", e olham para você
esperando que você as valorize.
Gostariam
que você dissesse: "Você é
realmente humilde, na verdade, você
é o homem mais humilde do mundo;
ninguém é tão humilde quanto você."
E então observe o sorriso que surge
em seus rostos.
O
que é o ego? O ego é uma hierarquia
que diz: "Ninguém se compara a
mim." Ele pode se alimentar da
humildade - "Ninguém se compara
a mim, sou o homem mais humilde.
Aconteceu
certa vez:
Um
faquir, um mendigo, estava orando em
uma mesquita, de madrugada, enquanto
ainda estava escuro. Era um dia
religioso qualquer para os muçulmanos,
e ele estava orando e dizendo:
"Eu não sou ninguém, eu sou o
mais pobre dos pobres, o maior pecador
entre os pecadores."
De
repente havia mais uma pessoa orando.
Era o imperador daquele país, e ele não
havia percebido que havia mais alguém
ali orando - estava escuro e o
imperador também estava dizendo:
"Eu não sou ninguém. Eu não
sou nada. Eu sou apenas um vazio, um
mendigo à sua porta." Quando
ouviu que mais alguém estava dizendo
a mesma coisa, o imperador disse:
"Pare! Quem está tentando me
superar? Quem é você? Como ousa
dizer, diante do imperador, que você
não é ninguém, quando ele está
dizendo que não é ninguém?"
É
assim que o ego funciona. Ele é tão
sutil! Suas maneiras são tão sutis e
astutas; você deve estar muito, muito
alerta, somente então você o
perceberá. Não tente ser humilde.
Apenas tente ver que todo o tormento,
toda a angústia vem através dele.
Apenas
observe! Não há necessidade de o
abandonar.
Você
não o pode abandonar. Quem o
abandonará? Então o abandonador se
tornará o ego. Ele sempre volta.
Faça
o que fizer, fique de fora, olhe, e
observe.
Qualquer
coisa que você faça - modéstia,
humildade, simplicidade - nada vai
ajudar. Somente uma coisa é possível,
e esta é simplesmente observar e ver
que o ego é a origem de toda a
infelicidade. Não diga isso. Não
repita isso. Observe. Porque se eu
disser que ele é a origem de toda a
infelicidade e você repetir isso, então
será inútil. Você tem que chegar a
esse entendimento. Sempre que você
estiver infeliz, apenas feche os olhos
e não tente encontrar alguma causa
externa. Tente perceber de onde está
vindo essa miséria.
Ela
está vindo do seu próprio ego.
Se
você continuamente percebe e
compreende, e a compreensão de que o
ego é a causa chega a se tornar
profundamente enraizada, um dia você
repentinamente verá que ele
desapareceu. Ninguém o abandona -
ninguém o pode abandonar. Você
simplesmente vê; ele simplesmente
desapareceu, porque a própria
compreensão de que o ego é a causa
de toda a infelicidade, se torna o
abandonar. A própria compreensão
significa o desaparecimento do ego.
E
você é tão brilhante em perceber o
ego nos outros. Qualquer um pode ver o
ego do outro. Mas quando se trata do
seu, surge o problema - porque você não
conhece o território, você nunca
viajou por ele.
Todo
o caminho em direção ao divino, ao
supremo, tem que passar através desse
território do ego. O falso tem que
ser entendido como falso. A origem da
miséria tem que ser entendida como a
origem da miséria - então ela
simplesmente desaparece.
Quando
você sabe que ele é o veneno, ele
desaparece. Quando você sabe que ele
é o fogo, ele desaparece. Quando você
sabe que este é o inferno, ele
desaparece.
E
então você nunca diz: "Eu
abandonei o ego." Então você
simplesmente ri de toda esta história,
dessa piada, pois você era o criador
de toda a infelicidade.
Eu
estava olhando alguns desenhos de
Charlie Brown. Em um cartum ele está
brincando com blocos, construindo uma
casa com blocos de brinquedo. Ele está
sentado no meio dos blocos, levantando
as paredes. Chega um momento em que
ele está cercado: ele levantou
paredes em toda a volta. E ele começa
a gritar: "Socorro,
socorro!"
Ela
fez a coisa toda! Agora ele está
cercado, preso. Isso é infantil, mas
é justamente o que você fez. Você
fez uma casa em toda a sua volta, e
agora você está gritando:
"Socorro, socorro!" E o
tormento se torna um milhão de vezes
maior - porque há os que socorrem,
estando eles próprios no mesmo barco.
Aconteceu
de uma mulher muito atraente ir ao
psiquiatra pela primeira vez. O
psiquiatra disse: "Aproxime-se
por favor."
Quando
ela chegou mais perto, ele
simplesmente deu um salto, abraçou e
beijou a mulher.
Ela
ficou chocada.
Então
ele disse: "Agora sente-se. Isso
resolve o meu problema, agora, qual é
o seu?"
O
problema se multiplica, porque há
pessoas que querem ajudar, estando no
mesmo barco. E elas gostariam de
ajudar, porque quando você ajuda alguém,
o ego se sente muito bem, porque você
é um grande salvador, um grande guru,
um mestre; você está ajudando tantas
pessoas! Quanto maior a multidão de
seus seguidores, melhor você se
sente.
Mas
você está no mesmo barco - você não
pode ajudar.
Pelo
contrário, você prejudicará.
Pessoas
que ainda têm os seus próprios
problemas não podem ser de muita
ajuda. Somente alguém que não tenha
problemas próprios o pode ajudar.
Somente então existe a clareza para
ver, para ver através de você. Uma
mente que não tem problemas próprios
pode vê-lo, você se torna-se
transparente.
Uma
mente que não tem problemas próprios
pode ver através de si mesma; por
isso ela torna-se capaz de ver através
dos outros.
No
ocidente existem muitas escolas de
psicanálise, muitas escolas, e
nenhuma ajuda está chegando às
pessoas, mas em vez disso, causam
danos. Porque as pessoas que estão
ajudando as outras, ou tentando
ajudar, ou pretendendo ser de ajuda,
encontram-se no mesmo barco.
É
difícil ver o próprio ego.
É
muito fácil ver o ego dos outros. Mas
esse não é o ponto, você não os
pode ajudar.
Tente
ver o seu próprio ego.
Simplesmente
observe.
Não
tenha pressa de o abandonar,
simplesmente observe. Quanto mais você
observa, mais capaz você se torna. De
repente, um dia, você simplesmente
percebe que ele desapareceu. E quando
ele desaparece por si mesmo, somente
então ele realmente desaparece. Não
existe outra maneira. Você não o
pode abandonar prematuramente.
Ele
cai exatamente como uma folha seca.

A
árvore não está fazendo nada -
apenas uma brisa, uma situação, e a
folha seca simplesmente cai. A árvore
nem mesmo percebe que a folha seca
caiu. Ela não faz qualquer barulho,
ela não faz qualquer anúncio - nada.
A
folha seca simplesmente cai e se
despedaça no chão, apenas isso.
Quando
você tiver amadurecido através da
compreensão, da consciência, e tiver
sentido com totalidade que o ego é a
causa de toda a sua infelicidade, um
dia você simplesmente vê a folha
seca caindo.
Ela
pousa no chão e morre por si mesma.
Você não fez nada, portanto você não
pode afirmar que você a deixou cair.
Você vê que ela simplesmente
desapareceu, e então o verdadeiro
centro surge.
E
este centro verdadeiro é a alma, o
eu, o deus, a verdade, ou como o
quiser chamar.
Ele
é inominável, assim todos os nomes são
bons.
Você
pode lhe dar qualquer nome, aquele que
preferir.

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