Sim,
é positivo – e necessário –
estar sozinho para conquistar
equilíbrio emocional. É possível
viver os momentos solitários de
forma criativa, como uma
oportunidade de auto-conhecimento.
Isso é muito melhor do que apenas
reclamar da solidão.
Vivemos
numa época em que a solidão se
tornou um assunto coletivo. Mesmo
quem não vive só conhece muita
gente que está longe da família
ou sem parceiro, voluntariamente
ou não. A procura do amor é um
assunto recorrente nas revistas,
na TV, na internet, nas conversas.
Fica a impressão – equivocada
– de que estar sozinho é ruim,
negativo, algo que nos diminui aos
olhos dos outros. Ao contrário,
os momentos de solidão não são
apenas saudáveis, mas
fundamentais para alcançarmos o
equilíbrio. “Quando mergulhamos
em nosso mundo interior,
descobrimos o que queremos e até
fazemos as pazes com nós
mesmos”. A sensação de que as
pessoas estão cada vez mais
sozinhas se confirma em pesquisas
feitas em todo o mundo. Nos
Estados Unidos e no Reino Unido,
cerca de 25% das casas têm um único
morador – e esse número
triplicou em relação ao
crescimento demográfico desde a década
de 60. Em São Paulo, segundo o
IBGE, uma em cada 30 pessoas mora
só. O mito de que felicidade
significa estar cercado de gente
nos influencia a ponto de
confundir ficar só com ser
desinteressante e incapaz de
atrair amor. Na crônica A Solidão
Amiga, o escritor, psicanalista e
professor Rubem Alves fala do erro
de associar recolhimento a
fracasso e idealizar a vida
alheia: “Sua tristeza não vem
da solidão. Vem das fantasias que
surgem na solidão. Você compara
a cena de você, só, na casa
vazia, com a cena (fantasiada) dos
outros, em celebrações cheias de
risos... Sofre a dor real da solidão
porque a solidão dói. Dói uma
dor da qual pode nascer a beleza.
Mas não sofra a dor da comparação.
Ela não é verdadeira.”
Fortalecer
a auto-estima – a capacidade de
gostar de si mesmo – é o
primeiro passo para se sentir
completo, sem procurar preencher o
vazio interior no contato com
outras pessoas, o tempo todo. “A
chave é separar o amor-próprio
da aprovação dos outros”. Às
vezes, só descobrimos o lado bom
da solidão no distanciamento
voluntário da família ou dos
amigos.
Parada
obrigatória
Períodos
de recolhimento são fundamentais
para avaliar o rumo da vida. “São
momentos de acalmar as emoções e
se desligar do cotidiano, para
obter clareza nas prioridades e no
que é preciso para ser feliz”.
Essa reflexão ajuda a discernir
em que momentos basta ficar
consigo mesmo e quando é melhor
procurar companhia. Às vezes,
desperdiçam-se oportunidades de
reflexão emendando uma atividade
na outra. É comum ao se flagrar
sozinho, ligar a TV, o som, o
computador – ou de preferência
tudo ao mesmo tempo. Essa é uma
das muitas formas de fugir de si
mesmo. Sábio, o corpo pode cansar
desses escapes e exigir uma pausa
para que haja uma recomposição
interna. “Uma enxaqueca ou dor
nas costas valem como aviso de que
é preciso sair da roda-viva”.
Por
não perceber que cada indivíduo
cria seu próprio vazio
existencial, não é difícil cair
na armadilha e acreditar que
arrumar um parceiro é a única saída
para a solidão. “É um erro,
pois inúmeras pessoas casadas se
sentem solitárias por não terem
diálogo nem troca com o
companheiro”.
Em
busca do amor
Ao
romper uma relação amorosa, para
muitos surge a necessidade de
procurar uma nova companhia, para
fugir do auto-questionamento e não
enfrentar a dor. “A tendência
é sair logo em busca de outro
relacionamento para preencher o
vazio que ficou do anterior”.
Mas o caminho inverso pode ser
mais compensador.
Hoje,
muita gente vive a solidão como
uma situação embaraçosa.
Especialmente as mulheres, que
crescem acreditando que precisam
sempre se voltar aos outros –
maridos, namorados ou filhos.
“Elas são condicionadas a achar
que, se estão sozinhas, falta
algo em sua vida”.
Espaço
para criar
Se
você está só, descubra como
usufruir dessa liberdade pessoal.
O primeiro passo é concretizar
metas sem vinculá-las ao encontro
com a pessoa perfeita, princesa ou
príncipe encantado que vai se
encaixar em seus sonhos. Tente
também mudar os padrões de
pensamento – por exemplo, dando
um novo significado a datas como
Dia das Mães ou dos Namorados,
que trazem uma nuvem de tristeza
para quem está só. Depois,
desenvolva sua criatividade.
Desenhar, pintar, bordar, escrever
ou realizar qualquer atividade artística,
por exemplo, vai ajudar a contatar
seu universo interior. Uma volta
na praça ou no parque também
pode ser uma maneira prazerosa de
usar as horas de solidão para um
encontro consigo mesmo.
Ampliar
o leque de interesses e buscar
adquirir conhecimento, ir ao
cinema,
freqüentar exposições ou
eventos culturais também faz
diferença. “Quem sai e circula
acaba conhecendo gente
interessante”. Para isso, é
preciso reprogramar o olhar sobre
outras pessoas, com menos
preconceito e mais condescendência,
humildade e disponibilidade.
Certamente, vai-se descobrir em
volta gente com idéias e opiniões
interessantes, fazer novos amigos
e, quem sabe, até encontrar um
amor.
É
preciso aprender a estar só
Para
que você se sinta bem quando está
sozinho, é importante estar em
paz e apreciar as horas de
recolhimento. Observe-se sem medo.
Deixe que todo tipo de idéia
venha à cabeça e avalie por que
você está pensando nessas
coisas. Mesmo que o problema não
seja resolvido na hora, sua
observação vai abrir caminho
para uma solução futura. Para
evitar desentendimentos quando
sentir necessidade de se afastar
dos outros, deixe claro para o
parceiro e para a família que o
recolhimento é importante para
você e que não significa rejeição
à companhia deles. Se pessoas próximas
não conseguem aceitar seu
isolamento, mesmo que temporário,
avalie por que os outros controlam
sua vida ou, ainda, por que sua
individualidade os incomoda.
Procure refúgio na
espiritualidade, que traz quietude
e reflexão. O relaxamento também
é uma prática que ajuda você a
perceber melhor sua mente e seu
corpo.
